22 julho 2006

Todos os dias mais amanhã

Para...
(foda-se esqueci-me do nome).

« Se por vezes dispensasses do teu miserável tempo a conhecer a tua pessoa irias chegar à conclusão de que não terias tempo para julgar os outros...»


Foda-se pá onde é que meteste aquilo? Estou lixado com esta merda. Tenho pressa, despacha-te. Já vai caralho, escusas de ser tão estúpido. Besta. O que é que disseste? Não ouvi bem. Nada, nada. Olha vou bazar e vê lá se não tripas tá bem? Senão... Sim vai-te já embora, quem precisa de ti? Tu saturas-me pá. TCHAU. Tchau. A sala era pequena, tão pequena que não mais que uma pequena poltrona lá coubesse mas ela lá estava, feliz na sua ignorância. Hum se a ignorância é tão má porque é que todos são felizes se simplesmente ignorarem. Continuando, lá estava ela sentadinha na sua poltrona sorridente sem saber o que se passa naquele mundo que transcende as paredes da sua pequena sala. Um mundo misterioso onde o dinheiro é tudo, ou quase tudo pelo menos. Um mundo... e que mundo, tinha tudo e ao mesmo tempo nada, para ela aquela sala era o mundo, tinha lá tudo o que sempre viu. Não houve evolução, para além daquela sala, daquela poltrona, daquela TV, daquele ar estagnado e fétido, nada. Caralho agora é a televisão que não trabalha. Vá-lá liga-te merda. Estou fodida com isto. Depois de uns quantos biqueiros aquilo lá ligou, digamos apenas que sobreviveu, mas aquelas ligações manhosas com papel de alumínio, sim aquele de embrulhar as sandes e essas cenas, a sustentar. Aquilo ligava mas qualquer dia... booom! bochecho, e depois o que é que ela fazia ali. E a vida continua, vazia, sem sentido, sem sabermos que direcção tomar e se realmente tomamos alguma. O que é a vida? Uns dizem que é tudo ourtos que é nada. Talvez só para contrariar num esforço inútil de serem diferentes. Decidam-se. Ainda há quem diga, muito filosóficamente, que a vida é um sonho a caminho da morte. Bem, se ninguém antes o disse então digo eu. Pessoalmente gosto desta prespectiva. A ideia da imortalidade da alma no modo em que cada vez que sonhamos damos vida a um ser e, ao morrermos somos apenas o despertar doutro entrando assim numa cadeia interminável. Timer 00:30. Este filme é bué louco. Timer 02:00. E mais ou menos 20 minutos depois... ZzzzzzZZzzzZzZZzZZzZZzZZZZzZZz.

17 julho 2006

Acaso

Ela não esperava que eu voltasse do trabalho tão cedo. Estacionei o carro, longe de casa e fiz o resto do caminho a pé. As ruas estavam desertas e a normalidade parecia pairar na nossa humilde casa. Os nossos dois filhos, Daniela e David, brincavam no quarto, um com o outro. Comecei a andar sobre o quintal, observando a janela do quarto da frente com as persianas corridas. Estas abriram-se e tornaram-se a fechar rapidamente. Andei mais depressa, dando a volta à casa. A porta dos fundos bateu e ouvi-o a correr pelo quintal. Ao chegar ao outro lado, vi de relance o blusão de cabedal, velho e sujo que trazia vestido. O portão ainda estava aberto. A porta do carro bateu, e em seguida partiu a toda a velocidade. Antes de entrar em casa, parei diante da porta durante alguns segundos, remoendo-me por dentro. Entrei em casa. O jantar não estava pronto, e ela estava no sofá a ver televisão.

- Olá querido! – saudou ela – então como é que correu o dia?

Coloquei a carteira em cima da mesa da cozinha e fui à casa de banho. Por uns instantes fiquei a olhar-me no espelho, perguntando-me a mim próprio o que é que eu tinha feito para merecer isto. Por fim, lavei as mãos, enxugei-as e voltei para a sala. Ela estava a ver a novela das 19:00. Olhou para mim e sorriu. A expressão dela demonstrava uma alegria contagiante. Os seus lábios estavam borrados com o batôn rasca que a mãe lhe tiha oferecido com o comentário entredentes - Ai filha, não consegues arranjar melhor? – estava descalça e não tinha nada debaixo do roupão.

- Não estava à espera que viesses tão cedo. – disse ela.

Sentei-me e olhei-a nos olhos.

- O jantar não está pronto. – continuou – mas está quase. Então, hoje deixaram-te sair mais cedo do trabalho?
- Não tenho fome. – respondi.

Ela desligou o televisor, olhou para mim e perguntou:

- Já estiveste com os miudos?
- Não! Onde estão eles?

Ela levantou-se e dirigiu-se para a cozinha.

- Estão no quarto, a brincar. – disse ela já lá dentro.
- Muito bem. – disse acendendo um cigarro. – Portaram-se bem?
- Nem dei por eles. – disse enquanto aquecia o jantar do dia anterior – Onde é que deixaste o carro? Não o ouvi quando chegaste.
- Devias estar muito ocupada. – disse baiximnho para mim mesmo – Deixei-o em frente ao bar.

Ela ficou perturbada.

- Porque fizeste isso?
- Fui lá beber uma cerveja. Depois como está um dia tão bonito, decidi vir a pé. – disse sarcasticamente.
- Então hoje não vais sair com o teu irmão?
- É verdade – disse eu levantado-me subitamente – Mete o meu comer no micro-ondas.
- O micro-ondas está avariado. Já te disse que tinhamos de comprar um novo.
- Sabes bem que agora não podemos. No fim do mês logo se vê.
- Está bem. – disse ela enfadada.
- Não venho tarde.

Ela aproximou-se e beijou-me. Fui ao quarto tirei a minha pistola de cima do roupeiro e voltei para a sala.

- Não queres comer nada?
- Não, como uma bifana no bar.

Sai e dirigi-me para o bar. Que ficava perto de casa. O amante da minha mulher estava lá todos os dias a esta hora. Encontrei-o a jogar flippers numa máquina. Quando me viu ficou assustado mas fingiu não me ter visto. Ele acabou de jogar e aproximou-se do balcão. Limitei-me a imitá-lo.

- Olá, tudo bem? – cumprimentei-o.
- Sempre!
- Duas cervejas por favor. – pedi ao barman – Uma para mim outra para o meu amigo.
- Obrigadinha amigo. – disse com um sorriso amarelo – E é um pires de marisco.
- Marisco? – pergunta o barman.
- Sim termoços. Marisco!
- Toma lá. – diz o barman dizendo entredentes – Este gajo é mesmo um parvalhão
- Como vão as coisas? – pergunta-me com o seu sorriso.
- Bem – respondi.

Bebemos as cervejas, as mãos do rapaz tremiam de nervosismo.

- Tenho de ir embora. - disse ele.
- Fique mais um bocado, por favor. Barman mais duas.

Ficamos ali sentados durante algum tempo e depois ouvi-o dizer.

- Tenho de ir jantar!
- Hoje não janto.
- Não? Porquê?
- Não tenho fome. Acho que vou à cidade, conheço lá uns bons sitios.
- Vai-se divertir um bocado, não é?
- Às vezes é preciso. Olhe que estou casado mas não estou morto.

Com esta frase houve um silencio prolongado. Pedi mais duas cervejas.

- Eu devia ir embora. – disse ele.

Limitei-me a sorrir.

- Lembra-se da minha mulher? – perguntei-lhe – Conheceu-a no baile de Stº António. Lembra-se?
- Oh, claro que me lembro. Uma mulher muito bonita, diga-se de passagem. – respondeu bebendo a cerveja – Mas olhe lá, você quer ficar longe de uma brasa daquelas?
- Gosto de variar. – respondi encolhendo os ombros.
- Ah, já percebi. Gosta de foder mais que uma!
- Antes de mais, eu amo as mulheres. – respondi – Por falar nisso, a gaja que eu ando a comer lá na cidade têm uma irmã com umas mamas muita boas. Já as provei... – disse sorrindo – É só estalar os dedos que ela abre logo as pernas.
- Ela é mesmo boa?
- Dou-lhe a minha palavra de honra homem.
- É preciso dinheiro?
- A minha não cobra nada. Mas se a outra lhe cobrar eu próprio lhe dou o dinheiro. Vamos?
- Vamos vou só à casa de banho.
- Eu espero lá fora.

Ao sair do bar, dei de caras com o meu irmão.

- Já volto. Vou só dar uma volta.
- Tás bem. – perguntou-me o meu irmão.
- Tou não há problema. Nada que um bocadinho do ar da noite não faça passar.
- OK, eu espero aqui por ti mano.

Esperei junto ao carro.

- Então está pronto?
- Sim, vamos. – disse o rapaz ainda tocado das cervejas.

Enquanto conduzia ele sentia-se incomodado. A bebedeira estava a passar e ele deu por si ao lado do marido da mulher que ele andava a comer.

- Estou a ficar mal disposto. – disse ele – Acho melhor voltarmos. Acho que vou para casa.
- Agora é tarde. Estamos quase a chegar.

Entrei com o carro num desvio da estrada principal dirigindo-me para o meio da mata e ele, assustado, perguntou:

- Onde vamos?

Não respondi. Parei o carro, tirei o revólver do bolso e ordenei-lhe que saisse. A estrada acabava ali e só havia mato à nossa volta. Era noite cerrada e não se ouvia qualquer ruido.

- Mas que merda vem a ser esta? – perguntou.

Não disse nada e fi-lo caminhar a uma distância considerável do carro.

- Existe um provérbio que o meu pai estava sempre a repetir que eu gostaria de te ensinar. “ Quem semeia ventos. Colhe tempestades.” – disse enquanto andava na direcção dele e lhe disparava dois balázios na fronha.

Ele caiu no chão inerte e fiquei ali durante algum tempo a olhar para o cadáver e a pensar de mim para mim o quato aliviado eu estava. Guardei a arma, voltei ao carro e pus-me a caminho, rumo a casa. Estacionei à porta de casa. Quando entrei ela vinha correndo na minha direcção.

- Oh, já chegaste! – disse meio desiludida.

As crianças viam desenhos animados sentados no sofá. Caminhei até elas e sentei-me no meio dos dois.

- Olá paizinho! - exclamou a Daniela beijando-o.
- Olá meu amor! Então Daniel não se dá um beijo ao pai?
- Tou a ver o Songoku. – disse beijando-me mas sem tirar os olhos da TV.
- Tirei um peso dos ombros. – disse levantando-me novamente.
- O teu irmão, está melhor? – perguntou a minha mulher.
- Está, foi só uma entorse. – respondi caminhando até ela – Ele gostava que o fosses visitar.
- Vou lá amanhã. – disse ela, caminhando sensualmente para a cozinha.

Eu estavo louco por ela.

- Tens qualquer coisa para eu comer?
- Faço uma sandes ou qualquer coisa tá bem?
- Então estás à espera do quê?

Dirigi-me para o quarto e ela, que tinha parado em frente à porta da cozinha deu alguns passos acelerados na minha direcção.

- Que foi?
- Não, não é nada. Só queria saber se querias que eu comprasse um garrafa de vinho para ocerecer ao teu irmão. – replicou nervosamente.
- Descansa que eu compro.

Entrei no quarto. Caminhei até ao roupeiro. Tirei o casaco e depois o revolver do bolso. Abri o roupeiro e pendurei o casaco na cara de um homem. Ele empurrou-me e saiu a correr em direcção à janela.

- È melhor parares! – disse-lhe apontando a pistola.

A minha mulher entrou no quarto de rompante e trancou-nos lá dentro a fim de evitar que as crianças vissem aquela cena.

- João. – gritou ela chorando – Por favor, não faças isso meu amor.
- Meu amor? Vai para ao pé dele. – ordenei – De joelhos. Rápido.

Ele fitava-me com o rosto pálido a tremer de medo. Os meus filhos batiam à porta e gritávam. Os dois continuavam de pé.

- Eu disse para se ajoelharem. – gritei disparando ao ombro do homem.

O homem contorcendo-se em dor ajoelhou-se. O choro da minha mulher irritava-me mais.

- João...pára!
- Cala-te puta. As crianças mereciam melhor que tu. Eu merecia melhor que tu.
- Por favor perdoa-me. – pede ela em pânico – eu nunca mais te volto a trair.
- Agora é tarde. – murmurei enquanto disparava dois tiros na cabeça do homem.
- NÃO. – gritou ela abraçando-se aos meus pés. – eu faço tudo o que quiseres, mas não me mates.

Ela estava branca como a cal e todo so seu corpo tremia.

- Tu não vês que já nada faz sentido? – disse tentando explicar o inexplicável. – como é que eu vou encarar as pessoas deste bairro, do meu emprego, a mim próprio quando me olho no espelho? Como? Como é que os nossos filhos, os nossos filhos, vão aguentar a infância e a adolescência com toda a gente sempre a deitar à cara que a mãe deles é uma puta, que dorme com todos. Pensate alguma vez neles?
- Foi por eles que fiz isto. – gritou – tu não recebes o suficiente para nos sustentar aos quatro. Eu tinha de fazer alguma coisa.
- E para ganhares dinheiro tiveste de ir para a cama com meio mundo? Foi? Não te desculpes com a falta de dinheiro. Em nove anos nunca precisamos de mais dinheiro. Por quê agora, foda-se?
- Desculpa. – gritou histérica – Eu não sabia o que havia de fazer.
- Não te vou desculpar Patricia, nunca. – disse apontando a pistola à cabeça dela – Tu erraste, e esse erro vai-te custar a vida.

Disparei e ela caiu inerte fazendo uma poça de sangue no chão. Caminhei até à porta e destranquei-a. Não deixei os meus filhos entrar no quarto e levei-os para a sala de jantar. As crianças sentaram-se no sofá e eu fiquei de pé, em silêncio.

- Papá... – murmurou a Daniela – que barulho foi aquele?

Eu não conseguia falar, estava totalmente fora de controlo, não conseguia olhar nos olhos dos meus próprios filhos. Fui ao quarto agarrei na caixa das balas que havia na gaveta da cómoda e coloquei-as uma a uma no revólver.
- Pai o que é que estás a fazer? – perguntou a Daniela.

Balbuciei coisas sem nexo. Caminhei para a sala e voltei a trancar a porta do quarto.

- Onde está a mamã? – perguntou o David.
- E o Zé? – perguntou a Daniela – Onde está o Zé?
- Quem? Quem é o Zé?
- O Zé é o senhor que estava no quarto com a mamã. A mamã disse que eu e o David agora tinhamos dois papás: tu e o Zé.
- Agora não têm nenhum. – disse dando um tiro a cada um.

A seguir desloquei-me até ao telefone e liguei para o 112, atendeu uma voz feminina.

- Estou sim? Qual é a emergência?
- Daqui João Vasco Bragantino dos Santos. Moro na Rua dos Trabalhadores do Mar nº18.
- E o que pretende?
- Acabei de matar a minha mulher e o amante – soltei uma gargalhada – e para o serviço ficar completo matei os meus dois filhos.
- Mas...

Desliguei o telefone. Fui para a porta da frente e deitei-me no passeio com as mãos em cima da nuca. Enquanto chovia, as sirenes ouviam-se ao longe.


3s
(Epilogo)
Velho num fundo preto olha e diz.
- Lembro-me como se fosse ontem... mas nunca mais!
Deita-se, fecha os olhos, entreabre-os e diz – Adeus!
Ouve-se um apito de máquina de sinais vitais. E enquanto a imagem desaparece ouve-se no fundo:
- Doutor, o prisioneiro 7105 acabou de falecer.





FIM